Os bebés são um público como os outros e por isso também pagam bilhete

Companhia portuguesa Musicalmente apresenta Concertos para Bebés pelo mundo e é candidata ao Young EARopean Award

“Não tentem explicar às crianças “Olha! Isto é uma flauta! E isto um saxofone!””, diz Paulo Lameiro, um dos músicos do espectáculo que se segue, de fato colorido e criança ao colo. “Os bebés são especialistas em aprender e nós, adultos, somos estúpidos de mais para lhes explicar o que quer que seja.” É assim parte do prólogo de todos os Concertos para Bebés, espectáculos de música para crianças pensados e interpretados pela companhia Musicalmente e que estiveram até ontem em Antuérpia. Integraram o festival de música erudita da cidade e andam a viajar até ao final do ano.

“O número de sinapses das crianças é muitíssimo maior do que o nosso: são extremamente sensíveis e críticas, têm uma opinião que as leva a reagir às coisas”, explica Paulo Lameiro, musicólogo e professor que criou estes espectáculos em 1998.

No pequeno teatro Tutti Fratelli, em Antuérpia, estão dezenas de pais e outras tantas dezenas de crianças belgas, desde os bebés de colo às crianças de cinco anos. Quando entram para o auditório, estão curiosos mas pouco efusivos. Sentam-se em almofadas em volta do palco e vão repetindo as palavras inventadas que os músicos cantam e ouvindo as músicas tocadas por Nuno Gonçalves no clarinete, José Lopes no saxofone, Pedro Santos no acordeão e Alberto Roque no saxofone barítono. Cristiana Francisco canta, tal como Paulo Lameiro, que disfarçadamente vai ainda coordenando o espectáculo – há alterações e improvisos em cerca de uma hora de espectáculo.

Antes de criar os Concertos para Bebés, Lameiro já tinha uma escola de música para crianças e fazia formação de professores na área, sempre inspirado pelas teorias do musicólogo norte-americano Edwin Gordon (que defende que é nos primeiros meses de vida que se é mais sensível ao som). Uma das alunas confrontou-o com o facto de não existirem na altura concertos para gente tão pequenina. Assim, criou um espectáculo em que os bebés pagam bilhete, porque têm estatuto de espectador.

Nos quatro concertos de Antuérpia, há uma ambiência de floresta encantada: os tons dos fatos são de terra, quando se apagam as luzes rolam bolas que luzem como pirilampos e saltam rosas e folhas sobre um grande lençol no meio do palco. O imaginário foi criado de raiz para o festival – o Laus Polphoiae, festival de música medieval de Antuérpia, é feito para um público conhecedor. “É importante criar interesse pela música erudita nos mais pequenos e este é um projecto que lhes abre o coração para a música”, diz Brat Demuyt, director artístico do festival. A Musicalmente é a única companhia que vem ao festival há três edições consecutivas.

Este ano, o tema é o reinado de Isabel I de Inglaterra (1533-1603), época de muita produção cultural, mas que é pouco conhecida, diz o responsável pela programação da 20.ª edição do evento, que reúne mais de 200 músicos.

Em Antuérpia, a Musicalmente associou-se ao trio belga Mezzoluna, com Raphaela e Susanna nas flautas de madeira e Adrian na concertina inglesa. Seleccionaram músicas populares inglesas do século XV e XVI, em mais uma diversificação das suas actuações, o que abre a porta para clientes repetentes. “Um casal disse-me que já tinha bilhetes comprados para o ano inteiro”, conta a produtora Rita Grácio.

José e os restantes músicos sentam-se bem perto das almofadas onde estão as famílias, fazem caretas aos bebés, deixam que eles andem pelo palco. Ocasionalmente, desafiam-nos a tocar os instrumentos e esses são momentos singulares, diz Paulo Lameiro, porque a criança percebe que a música não nasce da aparelhagem, mas que é feita por pessoas. Como aquelas que estão ali ao pé.

“É um momento muito especial aquele em que a mãe vê que o bebé reage à música. E o bebé sente, pelo contacto com os músculos e a respiração, que também ela se emociona”, conta Paulo. Foi o que aconteceu a Anjia e ao marido, Raphael, que trouxeram os seus dois gémeos de 17 meses de Bruxelas. “Eles estavam maravilhados e emocionei-me e chorei”, diz Anjia.

Os Concertos para Bebés fora de Portugal representam cerca de 30% da actividade da Musicalmente. Tocam um pouco por toda a Europa, mas também na Ásia e na América e estão nomeados para o Young EARopean Award 2013, que distingue conceitos inovadores na música e cujos vencedores são conhecidos este mês. Ao correr mundo, o transporte do material é um problema, em especial as almofadas que circundam o espectáculo – um modelo patenteado com a marca Concertos para Bebés de dimensões e densidade da espuma muito específicas. Solução: deixaram um conjunto de almofadas na China e outro em Bruxelas. Sempre que regressam lá perto, é só montar o palco.

Fonte: in site Público

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