Esta casa foi aos “Óscares da arquitectura”

Archdaily – São cada vez mais os projectos arquitectócnicos da região que recebem prémios ou são a eles candidatos. Fomos a Casal dos Claros conhecer um dos mais falados dos últimos tempos e que até foi candidato aos “Óscares da Arquitectura”

A Casa dos Claros, situada ao fim de um emaranhado de pequenas ruas e vielas da aldeia de Casal dos Claros, na freguesia de Amor, Leiria, foi notícia em vários sítios da internet nas últimas semanas por ter sido finalista dos conceituados prémios de arquitectura Archdaily.

A “febre” que contaminou a comunidade cibernautica nessas semanas levou a que esta obra de arte arquitectónica civil tivesse ficado muito perto de entrar no top 10, dos finalistas dos galardões deste ano.

Na verdade, ficou a apenas dois pontos de entrar na lista que lhe permitiria discutir a final. A obra saiu do estirador de Joel Esperança Simões e Ruben Vaz, responsáveis pelo atelier Contaminar e desengane-se quem pensa que estes dois arquitectos são novatos nestes e noutros galardões de arquitectura.

Os Archdaily são considerados quase como uma das versões dos Óscares da arquitectura mundial. Desta vez, a Contaminar resolveu concorrer com a Casa dos Claros, uma obra arquitectónica que não deixa ninguém indiferente, pela sua filosofia, integração com o meio natural e leveza de linhas.

O processo de planeamento e construção foi longo, asseguram. Os trabalhos iniciais começaram em 2007 e foram concluídos apenas em 2015. “Todo este tempo permitiu um grande amadurecimento e melhoria do projecto. Por exemplo, a luz é muito mais vertical, poética e filtrada, como acontece nos projectos nipónicos.

Na Europa, a luz é horizontal e parte das vidraças nas paredes. Gostamos de dizer que cada obra para nós, na Contaminar, é um laboratório. Não retiramos ideias de outras coisas e neste caso, que é paradigmático, tivemos um grande e intenso diálogo com o cliente”, afirma Joel Esperança Simões.

O arquitecto conta que, durante muito tempo, tanto os arquitectos como os donos da obra estiveram a trabalhar noutro desenho que acabou por ser abandonado.

“O projecto estava quase pronto para entrar nos serviços da Câmara, mas percebemos que os clientes não estavam a conseguir adaptar-se ao que viam. Estavam, constantemente, a alterar o trabalho. Isso indicou-nos que a proposta por eles escolhida não tinha as mais-valias que pretendiam. Foi quando resolvemos ter uma reunião, colocar as nossas ideias em cima da mesa e sermos francos. Dissemos que algo se passava com eles. E eles admitiram que estavam com receio de falar nisso, porque o projecto estava quase a entrar na Câmara, mas que preferiam outra das propostas que lhes tínhamos apresentado.”

Refazer ao gosto do cliente
A Contaminar agarrou nos desenhos e refez o projecto de acordo com as mais-valias que os proprietários preferiam e o resultado foi a casa que, por pouco, por muito pouco, não entrou no top 10 dos Prémios Archdaily deste ano. A opção pelo primeiro projecto, admitiram Emanuel e Tânia, os donos da Casa dos Claros, aconteceu pela atracção estética do desenho da casa, contudo, como, rapidamente, se aperceberam, o que interessava era a funcionalidade e o uso que ambos pretendiam dar ao seu novo lar, para mais, tendo uma criança pequena.

A casa não tem um único corredor definido, a sala e a cozinha, aparentemente, partilham um grande espaço, embora possam ser divididas por uma parede em vidro, caso assim se entenda. Contudo, isso poderia impedir uma comunicação o mais social possível entre os elementos da família, quando uns estiverem na cozinha e os outros na sala.

“É impressionante como as limitações da própria legislação condicionam o modo como as pessoas querem viver dentro dos seus próprios lares”, aponta Joel Simões. Ao lado da cozinha existe uma área que, mais uma vez, aparentemente, é vedada, mas que está em plena comunhão com o ar livre.

É ali que Emanuel recebe os amigos, fuma um cigarro, bebe um digestivo e escuta a sinfonia nocturna dos grilos que co-habitam nos terrenos circundantes. A atmosfera é semelhante à interior, embora o espaço seja, efectivamente, no exterior da habitação. É a divisão mais vivida pelos proprietários e pelas visitas, embora nem sequer esteja fechada, hermeticamente, dentro das quatro tradicionais paredes.

É, de certa maneira, a recuperação da velha tradição do alpendre, como os das antigas casas da Alta Estremadura. Um poema no meio do lar No centro da casa, num poço vertical vive um belíssimo e viçoso sobreiro, rodeado de um jardim com atmosfera japonesa.

Todo o ambiente emana paz, tranquilidade e ligação à natureza, além de ser um haikudedicado à luz e aos maravilhosos aromas de uma das mais belas e autóctones árvores portuguesas. A natureza vive dentro deste lar, onde as paredes, as portas e os armários são de um virginal branco.

O tom faria ruborizar de vergonha Krzysztof Kieślowski, caso a terceira e mais leve parte da sua trilogia das cores tivesse sido filmada na Casa dos Claros. A casa-de-banho “social”, para visitas e a mais usada, tem uma forte ralação com o pátio interior, de onde vem grande parte da luz.

Se gosta de se fechar no WC, vai demorar algum tempo a habituar-se a tanta vista. O melhor será deixar as inibições do lado de fora da porta.

“As casas devem ser sensoriais e, quem está habituado a coisas mais pesadas, pode achá-la ‘desconfortável’, mas isso é muito interessante. É tudo muito táctil. A pedra é pedra, a madeira é mesmo madeira. Muitos dos nossos clientes falam da visão e alguns, menos, falam do tacto e da necessidade de sentirem a casa na ponta dos dedos. Esses são os clientes mais enriquecedores.”

Quem é a Contaminar?
A Contaminar é, acima de tudo, uma marca que representa os arquitectos de um atelier de arquitectura que está de portas abertas em Chãs (Regueira de Pontes), Leiria. São três arquitectos numa equipa permanente e um quarto que é contratado sempre que necessário.

O termo “contaminar”, normalmente, tem uma conotação negativas, mas o grupo de arquitectos preferiram olhar para o lado positivo da questão. “Contaminar” é transmitir ideias e conceitos. Todas as obras assinadas pelo estúdio recebem como primeiro nome essa palavra: Contaminar Leiria, Contaminar Estoril… é omnipresente e viral. Mas a ideia de criar o gabinete das Chãs começou com uma ideia que vivia na cabeça de Joel Esperança Simões desde que o arquitecto tinha cinco anos e desenhava casas no infantário.

Curiosamente, ao contrário da maioria das crianças, em vez de as começar a desenhar pelo telhado, Joel, fazia sempre os primeiros rabiscos a partir das paredes e do chão para cima. Quando ingressou no curso de Arquitectura, decidiu ocupar o tempo das férias a trabalhar em ateliers de arquitectura para ganhar experiência.

“Quando saí da faculdade, onde conheci o Ruben Vaz, o meu primeiro sócio, logo no dia da praxe, pareceu-me que Leiria tinha possibilidade de ter mais oficinas de arquitectura. Havia ainda muito a fazer e de maneira diferente. Outra vantagem de que me apercebi foi o facto de que a mão-de-obra, da construção, à climatização ou carpintaria, é altamente especializada e de grande qualidade.”

Em 2004, abriu o primeiro atelier no quarto de Joel e depois a sala-de-jantar na casa dos pais, ao ponto de, quando chegava a hora da refeição, retirava os computadores e papéis de cima da mesa para meter os pratos e talheres.

Fonte: in site Jornal de Leiria

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