“Deixámos de ter vida”. Voluntários resistem, mas estão cansados

Na zona de Leiria chegaram a ser 100, agora são pouco mais de meia dúzia os que ajudam quem perdeu tudo

Num caderno de argolas de capa verde-esperança, Vera Braga Ribeiro guarda oito meses de dores alheias, de carências e prejuízos, e uma listagem de donativos. Foi ali que, a 18 de junho de 2017, um dia depois da tragédia de Pedrógão Grande, tomou as duas primeiras notas, numa folha já amarelada do fumo e do tempo: “26 empresas, 220 casas afetadas”. Com o passar dos dias, apagado o fogo, a realidade mostrava-se mais negra do que imaginava. Com o telefone numa mão e a outra no Facebook, acabou por reunir um exército de boa vontade, que só levantou o pé do interior quando o fogo chegou, ironicamente, à porta das suas casas, na Vieira de Leiria, dois meses depois.

Um grupo de voluntários que se foi estruturando de forma organizada, e que por esta altura pondera o que fazer no futuro: extinguir-se ou avançar para a constituição de uma associação. Este sábado, no pavilhão que ocupam desde o outono, onde guardam tudo quanto é bem alimentar, roupa, móveis, materiais de construção ou fardos de palha, uma reunião entre os que restam serviu para discutir o futuro. E os que restam já são poucos. “Mas bons!” – ouve-se logo.

Na verdade, chegaram a ser mais de 100, ao fim de semana, nessa difícil tarefa que é fazer triagem da roupa oferecida, como tão bem sabe quem já por lá passou. “As pessoas despejam tudo o que têm em casa. Às vezes o lixo”, conta Vera Braga, enquanto passamos em revista a zona dos eletrodomésticos, onde muitos já não funcionam. Em contraponto, chegaram muitos artigos novos às mãos deste grupo de voluntários: há atoalhados dentro das caixas, ainda embalados, louça de linhas modernas doada por uma cerâmica da região. Móveis em bom estado, colchões, artigos de limpeza e higiene. Há de tudo um pouco, que chegou de toda a parte, desde as empresas locais até autarquias da zona de Lisboa, Alentejo ou Algarve. De Castro Marim, de Tavira, das comunidades emigrantes no estrangeiro. Pelas mãos do grupo de voluntários passou cada artigo. Está tudo catalogado, registo feito num programa informático desenvolvido por Pedro Estima. “Graças a isso é possível saber não só o que temos em stock, como o que falta, o que entregámos a cada família”.

Voluntariado e profissionalismo
E são quase 140 as famílias que recebem atualmente ajuda. Às vítimas dos incêndios vieram juntar-se outras, carenciadas. “Nós fizemos um trabalho exaustivo, um levantamento porta-a-porta, que nos levou a descobrir muitas situações. Fizemos um trabalho que as entidades oficiais não fizeram”, acredita Vera Braga. No computador está tudo assinalado, por família: quantos elementos são, quantos trabalham, que problemas de saúde. E, a vermelho, se precisa de apoio psicológico.

Entre os 40 voluntários que se mantiveram assiduamente no grupo por mais tempo, há uma psicóloga, um psiquiatra e uma médica de clínica geral, e isso foi precioso para os dias que se seguiram ao fogo. Primeiro Pedrógão, depois a Vieira. Vera, motorista numa empresa de transportes, não fazia ideia que naquele sábado, 17 de junho, o jantar de amigos em sua casa não viria a repetir-se nos meses seguintes. No dia seguinte rumou a Pedrógão, e durante dois meses o grupo assentou arraiais numa casa de Vila Facaia. Foi nessa altura que conheceram Miguel Esteves, um rapaz de Pobrais, que acabara de perder a mãe, no incêndio. Ou Anabela, Teresa, Carolina, César, tanta gente que se cruzou naquela estrada de fogo, que perdeu tudo. Como Idalina, que tentaria o suicídio depois da tragédia. Era na casa dela que Vera e os amigos estavam, naquela domingo, 15 de outubro, a montar uma cozinha. De um lado o filho, Gabriel Frank, (que a acompanha nesta cruzada), enviava-lhe vídeos do fogo à porta do hotel onde fazia um estágio, na serra da Estrela; do outro os pais e os irmãos, ao telefone, a dizerem-lhe que a Vieira estava cercada de fogo, que o Pinhal de Leiria estava a arder. “Sabe o que é vermos as pessoas a fugir, e nós sem saber o que fazer, porque sabíamos que corriam o risco de morrer queimadas, como os familiares das pessoas que andávamos a ajudar?”

A segunda fase da vida deste grupo de voluntários começou nesse dia. Nessa altura mudaram os donativos para um pavilhão da antiga fábrica de vidros Dâmaso, também na Vieira de Leiria, atualmente propriedade da empresa Tubofuro. O espaço, com cerca de 800 m2, foi cedido pelo empresário Rui Cordeiro, que suporta também os gastos de luz, gás e água.

Volvidos oito meses do incêndio de Pedrógão e quatro do que lhes bateu à porta, é hora de parar para pensar. “Nos últimos tempos somos muito poucos. Além disso deixámos de ter vida. Nunca mais tivemos um fim de semana, e as nossas famílias ressentem-se”, sublinha Vera, no final da reunião de ontem. Além disso, outra realidade se atravessou no caminho: “percebemos que há muitas pessoas que estão a viver à conta deste apoio, que se habituaram a isto…”

Mercados a 21 de Abril
Para já, o grupo decidiu fazer um mercado, no próximo dia 21 de Abril, a decorrer em simultâneo na Vieira de Leiria, Vila Facaia (Pedrógão Grande) e Oliveira do Hospital. A ideia é escoar os muitos produtos ainda armazenados. Depois pensa contactar instituições a nível nacional e fazer chegar outros bens. De uma maneira ou de outra, “todas as famílias estão encaminhadas”. Depois dos fogos vieram outras tragédias, com mais ou menos dimensão, e todas acabaram por se cruzar no caminho deste grupo. “Há duas semanas seguiu uma carrinha para Tondela, com bens para uma família vítima daquele incêndio na associação. E também estamos a acompanhar uma situação na Lousã, de uma casa destruída por um incêndio na sequência de um curto-circuito”.

A porta do pavilhão está fechada à hora de almoço deste sábado, mas nem por isso as famílias deixam de aparecer: uma de Leiria que veio buscar móveis, outras ali da terra que aparecem à procura de alguma coisa, para lá dos cabazes que semanalmente são entregues. Chega Acácio, acompanhado de outros dois homens, para carregar fardos de palha para o gado. A 15 de outubro, ali na Vieira, enquanto ajudava a salvar os bens de vizinhos e amigos, morreram-lhe 43 cabras no fogo, vive com dificuldades mas é um dos que mais ajuda o grupo de voluntários, disponibilizando a carrinha para tudo o que é preciso. É um dos exemplos que Vera gosta de apontar, quando fala no muito que esta experiência lhe trouxe: “Os incêndios vieram numa altura em que estávamos todos desacreditados do bom sendo e da humanidade. E aqui no grupo conseguimos todos contrariar isso. Por outro lado, serviu-nos também para descobri o melhor e o pior do ser humano; a ganância, o egoísmo e a maldade nuns, a humildade e gratidão noutros.”

Nas camisolas que vestem, os voluntários exibem duas frases. Na manga pode ler-se que “amor só ensina amor”. E quando voltam as costas, há outra mensagem para quem fica: “Quando tudo for pedra, atira a primeira flor.” Os voluntários deste grupo espalharam muitas entre os quase 100 km que separam Vieira de Leiria e Pedrógão Grande. Mais de uma hora de carro, num trajeto que agora já percorrem menos vezes. Ainda assim, quando vão às aldeias ficam sempre preocupados com o que veem, telhados que talvez não resistam a grandes rajadas de vento. E de resto? “Falta muito apoio, de vária ordem, àquelas pessoas. É uma zona com graves problemas de alcoolismo, que traz outros problemas”. Vera, que estava numa fase difícil da vida, acredita que esta história ficará para memória futura, enche-lhe o peito o que ficou dos últimos meses, e continuará disponível para ajudar os outros: “Eu sei o que é ter tudo e perder tudo.”

Fonte: in site Diário de Notícias

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